A qualidade do ensino da criança não
deve depender do lugar onde ela nasce; é preciso pensar formas de
associação entre as gestões.
Melhorar a qualidade do ensino
público é hoje reconhecida prioridade da nação. Para traduzir esse
consenso em ação, colaboramos em duas iniciativas. A primeira é a
construção de uma rede de escolas médias federais, com dimensão técnica e
profissional. A segunda é proposta para reconciliar a gestão das escolas
pelos Estados e municípios com padrões nacionais de investimento e
qualidade.
O projeto da rede de escolas federais aprofunda e amplia a
concepção das escolas técnicas federais que já estão em construção. Quando
alcançar a dimensão prevista, essa rede deve absorver cerca de 10% do
universo de matrículas da escola média. Muito mais, portanto, do que
projeto piloto, para poder surtir efeito transformador. Muito menos,
porém, do que o universo total das matrículas da escola média, para
reforçar, em vez de substituir, o esforço dos Estados, aos quais cabe,
nesse campo, a responsabilidade principal.
São três os objetivos do
projeto. Deles resultam as diretrizes que o devem pautar. O primeiro é
consertar o elo fraco do nosso sistema escolar: o ensino médio.
Recentemente, houve parada e, em alguns momentos, até queda no número de
alunos matriculados no ensino médio. É preciso fazer mais do que os
Estados fazem agora.
O segundo objetivo é aproveitar a escola média
como lugar privilegiado para mudar o paradigma pedagógico dominante no
ensino brasileiro. A tarefa é ultrapassar o ensino enciclopédico e
informativo sem cair em modismos pedagógicos. O foco deve ser em
capacitações básicas: nos métodos de análise verbal e numérica e no uso
criterioso da informação. O aprofundamento seletivo é, para isso, mais
útil do que a superficialidade abrangente. E o requisito para que essa
mudança se efetue é a formação do professorado. O magistério deve ser
organizado, com a ajuda do governo federal, como carreira nacional.
E
contar com oportunidades de atualização ao longo da carreira. O terceiro
objetivo é inovar na prática do ensino técnico e profissional.
Não
basta oferecer ensino tradicional de ofícios rigidamente especializados.
Esse é um modelo de aprendizagem vocacional que está em crise em países
como a Alemanha, que nele tradicionalmente se distinguiram. Não basta por
razões práticas. O trabalhador do futuro precisa dominar conjunto de
capacitações conceituais e práticas genéricas. Não basta por razões
políticas. Não queremos contraste entre ensino generalista para as elites
e ensino especialista para as massas.
Nossa segunda iniciativa tem a
ver com problema fundamental do nosso ensino, com analogias em todos os
setores da política social: como reconciliar a gestão local das escolas
com padrões nacionais de investimento e de qualidade. A qualidade do
ensino que uma criança recebe não deve depender do acaso do lugar onde ela
nasce.
Para que se reconciliem esses dois imperativos, precisamos de
três instrumentos. No primeiro -sistema nacional de monitoramento e
avaliação-, já avançamos com a Prova Brasil e o Índice de Desenvolvimento
da Educação Básica (Ideb). No segundo -mecanismo para redistribuir
recursos e quadros dos lugares mais ricos para os mais pobres-, começamos,
com o Fundeb, a avançar. Porém, no terceiro -um procedimento de reparação
quando, apesar de todos os esforços, uma rede escolar local não consiga
atingir patamar mínimo-, demos apenas um primeiro passo, com os Planos de
Ações Articuladas, previstos no Plano de Desenvolvimento da Educação
(PDE), que torna realidade o regime de colaboração.
Resta perguntar o
que se deve fazer se, apesar dos esforços conjuntos, alguns municípios não
conseguirem oferecer ensino respeitando patamar mínimo de qualidade. É
preciso pensar formas mais complexas de associação entre os governos
federal, estaduais e municipais, em órgãos conjuntos que possam vir em
socorro de qualquer rede escolar local em dificuldades. Não se trata de
fazer com que um governo usurpe poderes de outro. Mas de seguir o caminho
de flexibilização do federalismo que caracteriza as democracias
federativas contemporâneas mais desenvolvidas.
São iniciativas
destinadas a emancipar o povo brasileiro. Precisam ser debatidas em todo o
país, para que se corrijam seus defeitos e se aproveite seu potencial.
Nosso país fervilha de energia humana desequipada e dispersa. Só precisa
de instrumentos, sobretudo dos instrumentos capacitadores da educação.
Lutemos para transformar o espontaneísmo inculto em flexibilidade
preparada. É o que de mais importante o povo brasileiro pode hoje fazer
para si mesmo. (Originalmente publicado no Jornal
Folha de S. Paulo, dia 18/0/2008, p. A3
Opinião).
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FERNANDO
HADDAD , 45, advogado, mestre em economia, doutor em filosofia, é ministro
da Educação.
ROBERTO MANGABEIRA UNGER, 60, professor titular da
Faculdade de Direito da Universidade Harvard (licenciado), é ministro
extraordinário de Assuntos Estratégicos e ex-colunista da Folha.