(artigo de autoria do Dep. Ciro Nogueira, originalmente publicado no Blog do Noblat, dia 21.11.2008)
Quase um mês depois das eleições, após a natural enxurrada de prognósticos e diagnósticos para definir quem mais ganhou e quem mais perdeu com o pleito, já é possível avaliar com relativa serenidade o que o eleitor quis que ouvíssemos, como políticos, com a voz rouca das urnas. A mensagem enviada pelo eleitor deve estar no topo da avaliação política das principais lideranças, para que não fiquem na contramão das ruas. Ousaria até dizer que esse recado foi tão forte, tão contundente, que deve influenciar toda a agenda institucional dos próximos meses, a começar pela eleição das mesas legislativas. E qual foi então a decisão tomada pelo eleitor?
Nas eleições de 2008, o eleitor não derrotou nem privilegiou este ou aquele líder, não cacifou nem riscou do mapa eleitoral esta ou aquela legenda. E é justamente aí que reside a grande novidade que saiu das urnas: ao não entronizar nenhum agente ou máquina partidária como protagonista político, o eleitor claramente se manifestou contra a concentração de poder. Eis o maior derrotado das eleições: o poder nas mãos de um só. O eleitor decidiu que deve haver um equilíbrio no jogo de forças e essa mensagem clara deve ser entendida e respeitada por todos nós.
A rejeição a uma força majoritária e dominante significa um avanço importante de nossa democracia. Afinal, se olharmos em retrospecto, toda vez que um eleitor atemorizado concentrou todas as fichas de seus anseios numa única ficha política os resultados não foram bons. Portanto, a vontade de rechaçar essa concentração de poder na política é algo a ser festejado como mais um avanço. Essa nova realidade traz importantes conseqüências para todas as instâncias políticas, no que diz respeito ao funcionamento das engrenagens de poder daqui para frente.
A história recente registra episódios em que uma coloração partidária ou ideológica assumiu a condição de ator central - infelizmente, sempre com desfechos nada auspiciosos. No regime militar, a legenda dos generais, a ARENA, se jactava de ser "o maior partido político do ocidente". Até que em 1974 a "onda" do MDB cruzou o país e desequilibrou a balança em favor do partido de oposição. Para muitos, poderia ser uma resposta do eleitor em prol de um novo centro de forças. Claro que foi sim, mas essa resposta representava muito mais uma reação a uma anomalia do que o restabelecimento da normalidade. E serviu de pretexto para o fechamento do regime, com o pacote de abril de 1975.
No Plano Cruzado, com o fim temporário da carestia, o eleitor entregou ao PMDB as chaves de quase todos os palácios de governos estaduais, além de uma avassaladora representação no Congresso Nacional. O problema é que a estabilidade desejada não conseguiu sobreviver o suficiente e o que veio depois foi um longo período de frustração, criando o terreno fértil para o surgimento de alternativas radicais e opostas para superação da crise. Desde então, o eleitor passou a ser mais cauteloso e nunca mais deixou o poder nas mãos de um só.
Basta lembrar que, com o Plano Real, o povo decidiu eleger seu principal condutor, o então candidato Fernando Henrique Cardoso. Na mesma leva, o eleitor colocou as fichas do partido do novo presidente nos tabuleiros estratégicos de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Mas esse movimento foi mais discreto e menos contundente do que o verificado durante o Cruzado, sinal de que os brasileiros àquela altura já esboçavam uma atitude eleitoral que vem se aperfeiçoando a cada eleição. Prova disso é que, naquele mesmo pleito de 1994, o PSDB se tornou uma força importante, mas não dominante no Parlamento. Sem contar que os estados da federação ficaram divididos de uma forma mais harmoniosa do que se verificara em outras oportunidades, até então.
O fato é que estabilidade econômica é sinônimo de estabilidade política. Na medida em que o eleitor vai se habituando com a rotina democrática, mais ele procura enxergar suas escolhas sem tanta paixão ou arrebatamento. Quando isso ocorre dentro de um ambiente econômico favorável, como nas últimas eleições, instintivamente o eleitor prefere apostar no equilíbrio de forças. Parte da premissa de que quando um partido, por exemplo, se torna importante demais, esse desequilíbrio acaba fazendo com que essa sigla se preocupe mais consigo mesma, com suas tendências internas, com seus caciques, com seus cargos, com suas ambições e contradições - do que com o conjunto amplo da sociedade.
Por isso mesmo, o eleitor em 2008 dividiu o poder com enorme sabedoria. O PMDB ganhou importantes capitais, mas o PT e o PSDB também. PP, PSB, PPS, PDT, PV, PTB, PC do B e PR também têm ótimos motivos para comemorar o pleito municipal. Entre as 79 maiores cidades do país, esse quadro de equilíbrio também preponderou. E o DEM, cuja performance muitos agouraram, acabou conquistando a estrela máxima entre as cidades, a capital paulistana. A vontade do eleitor está aí, alta e clara. Só não podemos fazer o que há de pior: colocar uma cunha entre a sociedade brasileira e a ação de seus representantes.
Ciro Nogueira é deputado federal (PP-PI)